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Ao deixar Prefeitura, Fortunati fala sobre transição para Marchezan e projeta candidatura ao Senado

28/12/2016 - PORTO ALEGRE, RS - Entrevista com o prefeito José Fortunati. Foto: Guilherme Santos/Sul21

Luís Eduardo Gomes

No domingo (1°), José Fortunati transmitiu a seu sucessor o cargo de prefeito de Porto Alegre. Depois de mais de seis anos, o trabalhista deixa o Paço Municipal com futuro ainda incerto. O desejo de concorrer ao Senado em 2018 é declarado, mas se será pelo PDT ainda é uma incógnita. Dos tantos assuntos que marcaram a gestão Fortunati na Prefeitura, as obras da Copa, as polêmicas envolvendo o projeto do Cais Mauá e os atritos com Marchezan na “passagem de bastão” são alguns dos destaques. Em entrevista ao Sul21 na última quarta-feira (21), ele mesmo deixou clara a leitura que está fazendo de seu sucessor: “O que eu percebo é que o Marchezan está fazendo um esforço muito grande para que eu não pague o 12º salário dos servidores para depois dizer: ‘as finanças estão um caos, a Prefeitura está mal, tanto é que não pagou os salários dos servidores”.

Por seis anos e nove meses, José Fortunati (PDT) exerceu a função de prefeito de Porto Alegre. Nenhum outro político eleito democraticamente governou tanto a cidade. Nem mesmo Tarso Genro (PT) e seu antecessor, José Fogaça (eleito pelo PPS, agora deputado federal pelo PMDB),  eleitos para dois mandatos, permaneceram tanto tempo na função.  Mais que isso, só intendentes e prefeitos nomeados. José Montaury, na virada do século passado, governo por 27 anos. Alberto Bins, indicado pelo Estado Novo de Getúlio Vargas, por nove. Guilherme Sociais Villela, nomeado pela ditadura militar, por oito anos.

“O Marchezan está fazendo um esforço muito grande para que eu não pague o 12º salário dos servidores para depois dizer: ‘as finanças estão um caos”

Nascido em Flores da Cunha, na Serra gaúcha, Fortunati chegou a Porto Alegre em 1974. Primeiro veio estudar. Formado advogado, acabou ficando. Como funcionário concursado do Banco do Brasil e já filiado ao Partido dos Trabalhadores, se tornou sindicalista. Em 1985, foi presidente do Sindicato dos Bancários de Porto Alegre. No mesmo ano, ajudou a criar a CUT-RS e foi seu primeiro presidente. No ano seguinte, eleito deputado estadual. Em 1989, deputado federal. Seria reeleito em 1994 e deixaria o cargo em 1996 para concorrer e ser eleito vice-prefeito na chapa de Raul Pont (PT). Derrotado por Tarso Genro em prévias internas em 2000, não chegou a concorrer a prefeito pelo PT. Ainda seria o vereador eleito com o maior número de votos já registrados na Capital: 38.989. Em 2008, voltaria a concorrer a vice-prefeito, desta vez ao lado de Fogaça. Assumiu a Prefeitura em 30 de março de 2010, quando o eleito deixou o cargo para tentar, e não conseguir, se eleger governador. Em 2012, enfim, venceu a eleição municipal nas urnas, com 65,22% dos votos em primeiro turno, outro recorde.

Fortunati recebeu o Sul21 em seu então gabinete para uma avaliação de sua gestão à frente da Prefeitura, sobre o que, em sua opinião, avançou e no que não foi possível alcançar os resultados que esperava, mas também para responder a questionamentos sobre temas como as obras de infraestrutura – em especial as chamadas “Obras da Copa” -, mobilidade urbana, saneamento básico e quando as praias da zona sul poderão ser balneáveis novamente – uma promessa da campanha de 2012 -, a revitalização da Orla do Guaíba, o futuro político, o embate público que marcou a transição da sua gestão para a do prefeito recém-empossado Nelson Marchezan Jr. (PSDB), e sobre o impeachment da presidenta Dilma Rousseff (PT), de quem foi aliado e fez campanha. Ainda sobraram tantos outros assuntos e temas relevantes a serem tratados com o agora ex-prefeito, mas, ao final da última pergunta, a conversa já se estendia por mais de 50 minutos, 20 a mais do que os inicialmente combinados. Confira a seguir a íntegra da entrevista.

28/12/2016 - PORTO ALEGRE, RS - Entrevista com o prefeito José Fortunati. Foto: Guilherme Santos/Sul21

Sul21 – Qual é o balanço que o senhor faz desses mais de seis anos e meio à frente da Prefeitura?

José Fortunati: O que eu posso dizer é que foram momentos extremamente preciosos, porque, com toda a minha experiência nas três esferas – municipal, estadual e federal -, não existe nada tão forte e tão intenso, tão relacionado com a vida do cidadão, como a função de prefeito.  Especialmente no segundo mandato, nós acabamos enfrentando o processo da crise mundial, que se agravou a partir de 2012, 2013, que apareceu na forma das grandes manifestações – pela primeira vez tivemos black blocks -, enfim, uma crise que vem se agudizando e que dificultou muito o segundo mandato. Mas eu tenho absoluta convicção de que não é um problema que o prefeito José Fortunati sofreu. Todos os gestores do país enfrentaram essa dificuldade e, comparativamente com o que eu conheço, como primeiro presidente da Frente Nacional de prefeitos e hoje vice-presidente, eu estou entregando a cidade em condições muito boas. Então, eu saio de cabeça erguida, tendo consciência de que certamente poderia ter feito coisas diferentes, mas não me arrependo de nada. As decisões foram tomadas em nome do interesse público. Aqui ou acolá, certamente, poderiam ter sido diferenciadas, mas o importante é que sempre foram tomadas de forma coletiva, porque algo que eu preservei bastante foi tentar ouvir a população. Muitos diziam que o Orçamento Participativo estava morrendo. Eu fui para as vilas populares, bairros populares e resgatamos as demandas que eram historicamente atrasadas e, no ano passado, em 2015, tivemos a maior participação popular da história da OP. Eu preferi fazer isso de forma mais construtiva, me equivocando, acertando, fazendo isso de cabeça muito tranquila.

Sul21 – No final dos 1990, o senhor era tido como o sucessor natural do então prefeito Raul Pont. O que aconteceu ali?

 Fortunati: Bom, primeiro havia uma sequência que o PT havia implementado a partir da eleição do prefeito Olívio Dutra com o Tarso como vice. A chamada alternância do vice como candidato à sucessão do prefeito eleito. Então foi Olívio e Tarso, Tarso e Raul e Raul e Fortunati. Qual era a tendência normal? Fortunati e mais alguém. Foi desta forma que eu imaginei sendo vice-prefeito e abrindo mão do meu mandato federal, que estava em um excelente momento. Havia um acordo político, claramente, de que isso acabaria acontecendo no final da gestão. Circunstâncias políticas levaram o Tarso a querer ser candidato. Tarso se apresenta então como candidato quase no processo eleitoral. Aí o Raul, já que o acordo estava rompido, também se lançou como candidato a prévias e eu também mantive a minha candidatura no processo de prévias, onde o Tarso acabou sendo escolhido pelo PT e se elegeu como prefeito da cidade. Me surpreendi no processo, porque nós caminhamos para que isso fosse uma decisão muito tranquila no partido, mas que não aconteceu. Acabei concorrendo a vereador e segui meu trabalho.

Sul21 – O senhor consegue imaginar quais seriam as diferenças entre o Fortunati prefeito naquela época e o Fortunati que foi eleito?

 Fortunati: Acho que são cenários diferentes. Imaginar as cidades lá no ano de 2000, [em comparação] com 2010, quando eu assumi, são momentos muito distintos. Começa, obviamente, pela composição partidária. O PT tinha uma forma de administrar muito mais “ortodoxa”. Sempre tinha uma supremacia absoluta nas suas administrações. Seus aliados tinham um papel muito secundarizado no processo. Então essa é a primeira diferença. Se eu tivesse sido eleito em 2000, seria uma administração petista. Em 2010, eu assumo em uma ampla coligação, o que me deu muito mais liberdade do ponto de vista pessoal para imprimir uma gestão com o meu perfil. Em 2000, eu certamente teria mais subordinação partidária. Em 2010, eu me senti completamente livre para fazer a gestão que eu entendia como mais adequada, discutindo naturalmente com os partidos e sempre com a população, mas a última decisão foi minha de uma forma muito forte. Acho que essa é a principal distinção. Em ações concretas, eu não acredito que poderia dizer se faria diferente, porque mesmo que eu tenha saído do PT, que eu tenha tomado as minhas decisões, eu continuo com uma visão própria que coloquei em prática nestes quase sete anos de mandato.

28/12/2016 - PORTO ALEGRE, RS - Entrevista com o prefeito José Fortunati. Foto: Guilherme Santos/Sul21

Sul21 – O senhor vai ser lembrado como prefeito em exercício durante a Copa do Mundo, positiva ou negativamente. Durante a campanha, Sebastião Melo disse que Fogaça e Fortunati tinham sido visionários na questão de aproveitar a Copa para fazer as obras. Mas, a população reclama, principalmente, que algumas obras demorarem muito tempo para serem terminadas, como a própria Vila Tronco, a Av. Ceará, na entrada da cidade. Por que isso aconteceu?

Fortunati: Eu posso explicar uma a uma. Vamos para a Av. Ceará, como exemplo. Se eu não tivesse tirado do papel, os gargalos continuariam. A Av. Ceará era e continua sendo um dos principais gargalos da cidade em termos de mobilidade. Vou falar de uma obra que está pronta, o viaduto sobre a Bento Gonçalves. Hoje ninguém mais fala, mas era o ponto de maior número de acidentes, de atropelamentos de pedestres e de estrangulamento do trânsito. Hoje está resolvido. Xis da Rodoviária, hoje ninguém mais fala. Por quê? Porque todas essas obras têm planejamento adequado, que vão dar muita qualidade para a mobilidade e para condição de vida das pessoas. Por que as demais obras não ficaram prontas (e tem obviamente mais obras que ficaram prontas)?

Na Ceará, nós fizemos licitação, preparamos o projeto de forma adequada, tudo bonitinho. Quando começamos a obra, a Infraero mudou a norma. Tínhamos uma norma de construção – tanto que é que construímos lá o viaduto Leonel de Moura Brizola – e aí a Infraero diz que as novas normas que dizem respeito à circulação de aviões a nível nacional não permitem que durante o dia seja construído qualquer obra no entorno do aeroporto. Então, isso fez com que a gente tivesse que mudar o escopo do contrato. Obviamente o contrato ficou mais caro, porque trabalhar a noite muda o salários dos trabalhadores, tem que ter mais equipamentos de iluminação. Ou seja, é uma outra obra. E ela seria feita das 7h às 19h, mas passou a ser feita da meia-noite às 6h. Reduziu-se inclusive o tempo de execução da obras. Tudo isso foi acarretando dificuldades. Ficamos um ano discutindo no Tribunal de Contas do Estado a transformação do contrato, que no original era para ser feito durante o dia, para que a obra pudesse ser realizada durante a noite. Isso foi atrasando. Eu tenho explicações técnicas. O que eu posso garantir é que houve um esforço e empenho, primeiro do secretário Urbano Schmitt (Governança Local), e eu me envolvi pessoalmente em cada uma das obras para que a gente pudesse ir contornando. Só que a vida de uma cidade ativa não depende somente da boa vontade do gestor público, ela tem outras interfaces e nós temos que respeitá-las.

Sul21 – Outra questão que a cidade teve dificuldade de avançar, desde a gestão Fogaça, foi a mobilidade, apesar de termos tido uma série de projetos. Começou lá atrás com os Portais da Cidade, depois o metrô e o BRT. Por quê?

Fortunati: Em primeiro lugar, no que diz respeito ao transporte coletivo, pela primeira vez na história de Porto Alegre, nós fizemos a licitação do transporte coletivo. É só ver no cenário nacional como é difícil. E não fizemos qualquer licitação. Hoje ela é reconhecida por quem é da área como uma das licitações mais modernas, porque ela impõe toda uma série de requisitos para que gradativamente o sistema de transporte coletivo de Porto Alegre possa ser aprimorado. E criamos, para fiscalizar esse aprimoramento, o Conselho de Usuários, que é uma grande novidade em todo o País. Segundo, avançamos na questão das lotações. Tínhamos uma grande reivindicação tanto de Belém Novo como da Restinga. Ficamos cinco anos na Justiça brigando para que a licitação pudesse acontecer. Veja bem as dificuldades. Uma coisa que parece simples, fazer duas linhas de lotação, levou cinco anos fazendo esse debate até que a Justiça finalmente liberou.

Por que o metrô se inviabilizou? Não foi por nossa culpa. Inviabilizou-se porque o governo federal disse: ‘não tem recurso’. Nós dependíamos dos recursos, principalmente do governo federal, para realizar o metrô, o que acabou não acontecendo.

Na questão dos BRTs, o projeto se inviabilizou porque nós não tínhamos financiamento para que esta obra acontecesse. Então nós tivemos que repensar o sistema para buscar recursos. Quando os BRTs foram pensados, não existiam recursos. Nós pensamos em viabilizar com recursos oriundos do governo federal, com financiamentos abertos para a Copa. Então, nós fomos adaptando. Obviamente, mexer com mobilidade urbana é muito complexo porque tem sempre que olhar a cidade. Vou te dar um exemplo do quanto é complexo. Eu assumi a Prefeitura com 2,3 km ciclovias. Estou entregando com 46 km. Tu achas que essa discussão foi fácil? Nós temos contestações muito fortes sobre a colocação de ciclovias em toda a cidade, porque quem usa automóvel ou mora na frente da ciclovia normalmente não quer ela. Só que a concepção que nós defendemos, e eu continuo defendendo, é que ciclovia é fundamental para podermos expandir cada vez mais o uso da bicicleta. Então, mobilidade urbana é um dos temas mais complexos porque, infelizmente, quase todo mundo olha para o seu próprio umbigo. Se usa automóvel, o automóvel tem que ter preferência absoluta. Esse é o problema.

Sul21 – Nesse sentido, já não era a hora de Porto Alegre se dar conta de que o automóvel não pode ser mais a prioridade do trânsito e de que é preciso tomar medidas, como bloquear o trânsito de carros particulares no Centro?

Fortunati: Eu acredito que se as pessoas criarem um pouco mais de consciência, usando o transporte coletivo… por exemplo, nesse último ano, mesmo melhorando a frota dos ônibus, mesmo com um sistema de lotações que é modelar no país, infelizmente o número de pessoas no transporte coletivo diminuiu e aumentou o número de carros. Por quê? Primeiro, porque desde Juscelino Kubitschek o país fundamenta o desenvolvimento econômico em cima da indústria automobilística. Esse é o primeiro equívoco. Hoje a coisa mais fácil do mundo, do ponto de vista de um bem com certa duração, é comprar um automóvel. Vai numa revendedora, com R$ 250 por mês, tu compra um modelo popular. Então, as pessoas são seduzidas pelo automóvel e não abrem mão desse direito. O grande problema é que para mudar essa cultura certamente não vai ser uma coisa simples.

Sul21: Mas não é papel do gestor público tentar forçar uma ruptura desse modelo?

Fortunati: Temos feito. Vou te dar um exemplo. Na Cavalhada, quando nós implantamos a faixa de ônibus foi uma revolução, porque a Cavalhada é muito movimentada. Nós dissemos: “em alguns horários terá preferência a circulação de ônibus”. Então, nós enfrentamos vários desafios. Fechamento da Av. Beira-Rio, de sábado pela manhã até domingo à noite. Não imagina o número de e-mails que eu recebo protestando contra essa medida. Na medida do possível, sem que isso estrangule a cidade, nós estamos fazendo.

“Eu saio de cabeça erguida, tendo consciência de que certamente poderia ter feito coisas diferentes, mas não me arrependo de nada”

Agora, vou voltar a tua pergunta inicial, bloquear o Centro da cidade para os automóveis tranca a cidade. É isso que as pessoas não se dão conta. Tem que primeiro pensar a cidade. Nós temos um problema, o lago Guaíba, que divide a cidade e diminui o espectro de circulação. Diferentemente de Belo Horizonte, que tem um eixo central. Curitiba, tem um eixo central. Nesse eixo central tu consegue fazer com que a cidade possa se mover em todas as direções. Porto Alegre já não.

Sul21 – Não temos zona oeste…

Fortunati: Exatamente. Então, nós temos 50% da cidade cortada. Se tu bloquear o Centro, tu para a cidade. As pessoas têm que compreender que não basta proibir a circulação, tu tens que criar alternativas. Hoje, eu não vejo. Nós estudamos de todas as formas a redução, tanto é que estamos implementado no Centro da cidade o chamado Quadrilátero. Os estudos estão prontos, reduzimos a velocidade para 30 km/h, temos recursos da CAF (Corporação Andina de Fomento) para que ele seja feito, mas sem proibir a circulação de automóveis, porque, se a gente proibir, vai parar a cidade.

28/12/2016 - PORTO ALEGRE, RS - Entrevista com o prefeito José Fortunati. Foto: Guilherme Santos/Sul21

Sul21 – Entrando na questão do Cais Mauá e da revitalização da Orla. Temos um processo adiantado, que é o trecho entre o Gasômetro e a Rótula das Cuias, e dois que vêm sendo discutidos há muito tempo e ainda estão em fase de licenciamento, que são as áreas do antigo Estaleiro Só e do Cais Mauá, e vão ficar para a próxima gestão. Em que pé andam?

Fortunati: O EVU (Estudo de Viabilidade Urbanística) com licenciamento ambiental do Cais Mauá é uma questão de semanas. Eu pretendia, inclusive, entregar nessa semana. Infelizmente, a Secretaria Municipal do Meio Ambiente não conseguiu finalizar os estudos. Acredito que no mês de janeiro esse licenciamento já esteja pronto e aprovado, o que vai dar condições de iniciar a obra de revitalização do Cais Mauá. Na questão do Pontal do Estaleiro, o que houve foi a mudança de concepção. Primeiro, houve uma aprovação importante numa votação da Câmara, que obviamente eu sancionei, diminuindo o limite de construção e ampliando o limite da orla em 60 metros, permitindo com isso que a população continue tendo pleno acesso. Com isso, o empreendedor teve que mudar completamente a concepção do projeto e é muito mais responsabilidade do empreendedor do que da Prefeitura no que diz respeito aquele projeto. Está andando de acordo com a tramitação que o empreendedor está dando.

Sul21 – O senhor acredita que construir um shopping e torres é a melhor forma de revitalizar a área do Cais Mauá?

Fortunati: O ideal seria que o poder público tivesse recursos para revitalizar. Eu não tenho dúvidas. Mas a vida real mostra que, cada vez mais, o Estado brasileiro tem menos recursos. Eu sou absolutamente a favor da busca de parcerias público-privadas. Por quê? Porque o estado brasileiro tem que ter algumas ações em cima do que é fundamental. Educação, porque não investir mais? A grande crítica que se faz é que se investe pouco em educação básica. Nós tínhamos que investir mais na educação básica. Nós tínhamos que investir mais em saúde, em assistência social. Então, nós temos setores que precisam de investimento maior, como infraestrutura, porque sem investimento em infraestrutura o estado nacional não se desenvolve. Nós temos um déficit de infraestrutura muito forte. Eu não posso pensar um projeto como o Cais Mauá, que pode ser feito em uma parceria público-privada, e dizer vou retirar recursos. Retirar recursos da onde? O problema é esse: uma questão de opção. Eu gostaria que a revitalização do Cais Mauá fosse feita pelo poder público, mas eu tenho consciência, por conhecer a situação da esfera federal, da esfera estadual e do município, que isto nunca iria acontecer.

Eu vou te dar um exemplo exatamente das casas da Luciana Abreu. Criou-se ao longo do tempo toda uma polêmica. O promotor Túlio Barbosa esteve comigo nesta mesa propondo uma solução negociada, ou seja, nós manteríamos algumas das casas e o empreendedor poderia construir. Bom, aí simplesmente o movimento Moinhos Vive não aceitou, radicalizou. O tempo passou, as casas tombaram, primeiro pela questão temporal, e depois a Justiça simplesmente deu ganho de causa ao empreendedor e todas as casas foram derrubadas. Esse tipo de ação para mim é danosa à cidade. Então, quero aqui defender, com toda a tranquilidade, a parceria público-privada para que a gente possa ter, de uma vez por todas, esse projeto do Cais Mauá entregue à cidade.

Sul21 – O senhor admite, então, que não é o projeto ideal?

Fortunati: É o projeto possível. O ideal seria o que Belém do Pará fez. Só que tu vai a Belém e há um arrependimento muito forte, porque todo mês o governo do Pará – é uma obra estadual – tem que desembolsar recursos. Eu pergunto: uma área que é voltada para o turismo e para o lazer – está bem, é importante -, é justo que o governo do Pará, que é um governo pobre, retire recursos essenciais da saúde, educação, etc, para manter a orla de Belém aberta? Acho que não. Por isso que eu prefiro a parceria público-privada nesse momento e não vejo, no futuro próximo, outra saída que não ela.

Sul21 – Sobre o Programa Integrado Socioambiental (PISA), houve um aumento de tratamento de esgoto de 27% para 77% na Capital. O senhor considera esse o grande legado que as gestões Fogaça e Fortunati deixam para a cidade?

Fortunati: Na área de saneamento básico, sim, porque é um projeto de uma envergadura fantástica, que diz respeito ao aumento não somente do tratamento de esgoto, mas também do número de famílias que foram beneficiadas. São 1.680 famílias que foram reassentadas no projeto social do PISA. Além do aumento do tratamento do esgoto cloacal, de 27% estamos chegando a quase 80%, nós tivemos 1.680 famílias que moravam em sub-habitação que foram remanejadas com construção de moradias adequadas. É um projeto indiscutível que ficará como um dos principais legados com toda a certeza.

Sul21 – No entanto, no projeto original, e o senhor mesmo falou a respeito em uma entrevista durante a campanha de 2012, existia a intenção de tornar as praias da zona sul balneáveis novamente. Por que isso não avançou?

Fortunati: Porque, em primeiro lugar, o projeto foi obstruído pela Fepam. Tu deves te recordar que a Fepam deu um parecer quanto à utilização da nossa unidade de tratamento lá na zona sul, que é a nossa principal, dizendo que ela não estava adequada às normas que a Fepam entendia como adequadas. Nós tivemos que fazer estudos, isso acabou levando quase dois anos de discussão técnica, e finalmente a própria Fepam reconheceu que a solução técnica que o DMAE buscou está absolutamente adequada. Ou seja, que a água tratada que é devolvida para o Guaíba está em melhores condições do que o Guaíba tem hoje como água. Só que isso acabou fazendo com que o projeto perdesse dois anos. Com isso, naturalmente, nós não conseguimos colocar em funcionamento todo o sistema, isso retardou a chamada devolução da balneabilidade. Eu acho que, pelo andar que nós estamos colocando, no próximo ano, nós teremos a água de Ipanema balneável durante os 365 dias do ano. Hoje, de cada quatro dias, três já são balneáveis. Qual é o grande problema? Como tem um que não é, nós não podemos liberar, porque não existe uma lógica três sim, um não, essa é a média geral. Então, continua proibido. Em um ano mais, e essa é uma previsão dos técnicos, não é minha, acho que nós teremos a balneabilidade em Ipanema.

Sul21 – A parte técnica já foi concluída?

Fortunati: Já foi concluída. O que nós ainda estamos fazendo, e isso é importante deixar claro, são algumas ligações do esgoto residencial com as nossas tubulações. Fizemos um trabalho muito forte em Ipanema, mas ainda existem algumas coisas a serem feitas. Mas isto está na fase final.

Sul21 – E até quando nós teremos pessoas vivendo com esgoto e valões passando na porta de suas casas em Porto Alegre?

Fortunati: Enquanto nós tivermos áreas irregulares isso vai permanecer. Obviamente, nós teríamos que ter uma política que desse para construir casas para todos, regularizar todas as áreas irregulares. Isso se torna impossível porque, na medida que nós vamos regularizando, existem ocupações, invasões, aí são invasões. Vou citar uma claramente: aqui na Frederico Mentz, 330, estamos construindo um loteamento para atender os ex-moradores da Vila Liberdade, que foi incendiada. E ela está ocupada, foi invadida, por pessoas que nada têm a ver com aquilo, inclusive da região metropolitana.

28/12/2016 - PORTO ALEGRE, RS - Entrevista com o prefeito José Fortunati. Foto: Guilherme Santos/Sul21

Sul21 – O senhor acredita que exista uma ‘máfia das ocupações’ na cidade?

Fortunati: Eu afirmo taxativamente. Existem especuladores que formam uma máfia e utilizam pessoas de boa fé, de boa índole, que precisam, em benefício dessas invasões. Isso afirmo porque está comprovado. Nós temos provas.

Sul21 – Não teria como usar os muitos prédios e apartamentos que estão desocupados na cidade para avançar na questão da moradia?

Fortunati: Da Prefeitura, não. Nós não temos nenhum. Se são prédios privados, aí é toda outra novela, porque nós não temos poder sobre os prédios privados.

Sul21 – O senhor entrega o cargo para o Marchezan domingo. A partir daí, o que vai fazer?

Fortunati: Eu ainda não estou plenamente assentado em 2017. Minha grande preocupação é terminar bem a gestão, tentar pagar a folha dos servidores, que infelizmente está difícil em função da nova medida tomada pelo Marchezan. A minha atenção total está voltada até o dia 31 de dezembro de 2016. O que eu pretendo fazer em 2017. Primeiro, tenho um programa de entrevistas na TV Urbana, pretendo mantê-lo, porque acho que é importante e gosto de fazer. [A entrevista foi realizada no dia 28 de dezembro].

Sul21 – O senhor gosta do papel de jornalista?

Fortunati: Eu gosto, porque é algo num tom coloquial, de bate-papo. O meu programa tem um sentido um pouco diferente. Eu procuro decodificar a função, a instituição, que o entrevistado representa. O Ministério Público, o Tribunal de Contas, para nós é uma questão muito usual, mas a maioria das pessoas não sabe o que é. Então, quando eu entrevisto o Marcelo Dornelles, procurador-geral de Justiça, e o Marco Peixoto, presidente do TCE, e fiz essas duas entrevistas, entrevisto para decodificar.

“Eu acho que, pelo andar que nós estamos colocando, no próximo ano, nós teremos a água de Ipanema balneável durante os 365 dias do ano”

Segundo, não quero e nem pretendo estar em nenhuma estrutura partidária, ocupando cargos, nem de governo. Não adianta me convidar. Vou buscar uma alternativa, dar aulas, participar da gestão de alguma entidade, é isso que eu estou construindo, que não está fechado.

Sul21 – Em 2018, vai concorrer ao Senado?

Fortunati: É a minha intenção. Como falei antes, sempre explicitei que queria ser prefeito de Porto Alegre. Eu não escondo o jogo. Tem gente que fica amorcegando. Eu sou muito explícito. O que me seduz, o que me instiga? É o Senado. Já fui deputado federal, já fui deputado estadual. O que me instiga hoje para fazer bons debates em cima deste acúmulo de 40 anos de vida pública? É o Senado Federal. Sei que é uma eleição difícil, porque é majoritária, mas é o que eu me coloco à disposição para ser em 2018.

Sul21 – Pelo PDT?

Fortunati: Bom, isso está em aberto.

28/12/2016 - PORTO ALEGRE, RS - Entrevista com o prefeito José Fortunati. Foto: Guilherme Santos/Sul21

Sul21 – Há alguma mágoa do senhor em relação ao prefeito eleito Marchezan Jr. Primeiro, pelas críticas duras que ele fez a sua gestão durante a campanha, mesmo o PSDB tendo sido base durante quase todo o seu governo…

Fortunati (interrompe a pergunta): Tendo como vice o Gustavo Paim, do PP, que fez parte do meu governo durante todo o tempo. No segundo turno, tendo o PTB e outros partidos que também fizeram parte, aliás fazem parte do governo até hoje.

Sul21: …e também pela maneira como ele está lidando com a questão da transição?

Fortunati: Eu não digo que há uma mágoa. Obviamente, há uma divergência muito clara que eu estou explicitando. Mágoa, normalmente, fica guardada. Eu não guardo porque é uma questão política. Não é com o indivíduo, o sujeito José Fortunati, é com a cidade. A questão do IPTU, para mim, beira uma irresponsabilidade. Porque ele tenta, na última entrevista, dizer: ‘a receita de 2017 deve ser arrecadada em 2017′. A pergunta que eu faço: em 31 de dezembro de 2016, a cidade vai mudar? Os servidores públicos serão outros? A coleta de lixo será outra? O fornecimento d’água? Muda é a gestão. A cidade não é nem do Fortunati nem do Marchezan, ela continua. Eu estou colocando em prática algo que existe há 28 anos na cidade, que é conceder um desconto no IPTU no início do mês de janeiro, porque as pessoas acabam pagando no mês de dezembro e todos os prefeitos nesses últimos 28 anos pagaram o 12º, porque o 13º é pago no dia 20, graças a esse desconto no IPTU. Então, o que eu percebo é que o Marchezan está fazendo um esforço muito grande para que eu não pague o 12º salário dos servidores para depois dizer: ‘as finanças estão um caos, a Prefeitura está mal, tanto é que não pagou os salários dos servidores’. Esta é a leitura que o prefeito José Fortunati está fazendo do seu sucessor.

Sul21 – O que o senhor espera da gestão dele?

Fortunati: Isso, sem comentários. A partir de 1º de janeiro serei um cidadão de Porto Alegre e ele será o prefeito. Vamos aguardar que as coisas aconteçam.

Sul21 – O senhor foi um aliado da presidenta Dilma…

Fortunati: durante todo o governo.

Sul21 …No final de 2015, eu conversei com o senhor quando o PDT fez um ato de lançamento de uma nova campanha da legalidade e o senhor dizia que ainda não via embasamento legal para o impeachment. Passado um ano, com o impeachment aprovado e diante de todos os desdobramentos do governo Temer, foi legítimo?

Fortunati: Hoje, discutir o impeachment ou não, é algo que já está consolidado na vida das pessoas, da cidade, do país. A não ser por questões teóricas, o impeachment está dado. Eu só cobro de amigos meus, que são da cidade, que foram para as ruas pedir pelo impeachment da Dilma, um comportamento idêntico ao que acontece hoje. Porque as acusações feitas naquele momento não mudaram. Na verdade, se acusava o governo Dilma de desvios, de corrupção, tudo aquilo que foi feito durante o seu governo, eu não percebo a mudança. Ao contrário, a operação Lava Jato mostra que o centro do governo Temer também está completamente envolvido. E não vejo as mesmas pessoas, que tão fervorosamente foram às ruas para protestar contra o governo Dilma e pedir o impeachment, agora se movimentando. Isso eu faço diariamente, porque eu acho que a gente tem que ser coerente. Coerente não com o partido X ou Y, não com pessoas X ou Y, mas com princípios, pressupostos. E acho que eles não estão sendo coerentes. Eu continuo sendo.

28/12/2016 - PORTO ALEGRE, RS - Entrevista com o prefeito José Fortunati. Foto: Guilherme Santos/Sul21

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